Eu sempre escrevi poesia. Prosa poética. Aqueles textos curtos que cabem numa página, que dizem muito em pouco. Minhas publicações até agora foram todas assim, coletânias com fragmentos de sentimento.
Eu já tinha escrito contos antes, claro. Mas guardava. Ou mostrava só para algumas pessoas. Nunca tive coragem de publicar.
Ainê, a Encantada é diferente.
É meu primeiro conto publicado. E também o meu primeiro que mergulha nas raízes da espiritualidade e do folclore brasileiro. Uma história de fantasia sombria que eu carreguei comigo por alguns anos, antes de finalmente ter coragem de colocar no mundo.
E ele abre a Coleção Contos dos Distorcidos, uma série que vai explorar esse universo que criei. Já tenho mais dois títulos planejados, que estão em desenvolvimento, mas ainda sem previsão de lançamento. Essas coisas levam tempo, e eu aprendi a não ter pressa.
Como Tudo Começou
Foi num sebo. Eu tinha uns vinte e poucos anos e encontrei um livro que falava brevemente sobre Encantaria (também chamado de Catimbó ou Jurema Sagrada). Aquelas páginas falavam de mestres encantados, de sete cidades sagradas…
Mas uma frase me marcou: quando alguém desaparece sem deixar rastro, não é que morreu, mas foi encantado.
Essa ideia ficou comigo. Cresceu comigo. E quando anos depois me tornei praticante da Umbanda Jurema, aprendi na prática o que aquele livro só havia me ensinado: o mundo espiritual é real, é poderoso, e nem tudo que brilha é luz.
Da Poesia para a Narrativa
Escrever um conto foi assustador.
Eu estava acostumada a dizer as coisas em imagens e emoções soltas. Mas aqui eu precisava construir um mundo inteiro. Personagens que respirassem. Uma história que fizesse sentido mesmo sendo absurda.
Ainê nasceu disso tudo. Uma menina do interior do Nordeste que perde a avó e começa a ouvir sussurros. Vozes que prometem reencontro, que falam com a voz de quem ela ama, que a chamam para um lugar onde poderão ficar juntas para sempre.
E ela vai. Porque acredita. Porque confia. Porque a saudade dói demais.
O que acontece depois… bem, aí é onde a fantasia encontra o sombrio.
Dark Fantasy com Raízes Brasileiras
Este não é um conto de fadas. É terror psicológico disfarçado de magia.
Ainê atravessa sete fendas, cada uma roubando um pedaço dela: alegria, sonhos, destino, fé, identidade, vontade, justiça. Os Distorcidos são as criaturas que governam essas fendas, são predadores da alma. Eles se alimentam do que nos torna humanos.
E eu quis isso. Quis criar algo que incomodasse. Que fizesse você questionar: quando ouvimos vozes, como sabemos em quem confiar?
Como praticante da Umbanda, sei que espíritos obsessores existem. Eles imitam vozes de quem amamos, se vestem de luz para nos enganar. Ainê, a Encantada é minha forma de explorar isso através da ficção (o perigo da fé cega, da confiança sem discernimento).
(Importante: os Distorcidos e as sete fendas são criação literária. Não têm relação com as verdadeiras sete cidades sagradas da Encantaria, que são lugares de luz e sabedoria.)
Por Que Escrevi Isso?
Porque eu precisava.
Depois de anos escrevendo sobre dor emocional, sobre relacionamentos, sobre solidão, tristeza… eu precisava escrever sobre outra coisa. Sobre o sobrenatural. Sobre o folclore que corre nas minhas veias. Sobre as coisas que aprendi nos terreiros e que me assustam tanto quanto me fascinam.
E também porque queria ver se eu conseguia. Se conseguia sair da zona de conforto da poesia e construir uma história que prendesse do início ao fim.
Acho que consegui.
É curto, pode ser lido em menos de uma tarde. Mas prometo que vai ficar com você depois.
É meu primeiro conto publicado. Meu primeiro passo para fora da poesia. O primeiro volume da Coleção Contos dos Distorcidos.
E eu tô com medo e empolgada ao mesmo tempo.
Se você acompanha meu trabalho há um tempo, vai perceber que ainda sou eu escrevendo, ainda tem aquela intensidade emocional, aquele jeito de descrever sentimentos. Mas agora com criaturas estranhas, fendas na realidade e uma protagonista que você vai amar e ter pena ao mesmo tempo.
Com carinho,
Lua Eslava
Obs.: Se depois de ler você ouvir seu nome sendo chamado no escuro… fica esperto. Nem toda voz que parece familiar é de confiança. eu precisava.