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Conto: Ainê, a Encantada

Eu sempre escrevi poesia. Prosa poética. Aqueles textos curtos que cabem numa página, que dizem muito em pouco. Minhas publicações até agora foram todas assim, coletânias com fragmentos de sentimento.

Eu já tinha escrito contos antes, claro. Mas guardava. Ou mostrava só para algumas pessoas. Nunca tive coragem de publicar.

Ainê, a Encantada é diferente.

É meu primeiro conto publicado. E também o meu primeiro que mergulha nas raízes da espiritualidade e do folclore brasileiro. Uma história de fantasia sombria que eu carreguei comigo por alguns anos, antes de finalmente ter coragem de colocar no mundo.

E ele abre a Coleção Contos dos Distorcidos, uma série que vai explorar esse universo que criei. Já tenho mais dois títulos planejados, que estão em desenvolvimento, mas ainda sem previsão de lançamento. Essas coisas levam tempo, e eu aprendi a não ter pressa.

Como Tudo Começou

Foi num sebo. Eu tinha uns vinte e poucos anos e encontrei um livro que falava brevemente sobre Encantaria (também chamado de Catimbó ou Jurema Sagrada). Aquelas páginas falavam de mestres encantados, de sete cidades sagradas…

Mas uma frase me marcou: quando alguém desaparece sem deixar rastro, não é que morreu, mas foi encantado.

Essa ideia ficou comigo. Cresceu comigo. E quando anos depois me tornei praticante da Umbanda Jurema, aprendi na prática o que aquele livro só havia me ensinado: o mundo espiritual é real, é poderoso, e nem tudo que brilha é luz.

Da Poesia para a Narrativa

Escrever um conto foi assustador.

Eu estava acostumada a dizer as coisas em imagens e emoções soltas. Mas aqui eu precisava construir um mundo inteiro. Personagens que respirassem. Uma história que fizesse sentido mesmo sendo absurda.

Ainê nasceu disso tudo. Uma menina do interior do Nordeste que perde a avó e começa a ouvir sussurros. Vozes que prometem reencontro, que falam com a voz de quem ela ama, que a chamam para um lugar onde poderão ficar juntas para sempre.

E ela vai. Porque acredita. Porque confia. Porque a saudade dói demais.

O que acontece depois… bem, aí é onde a fantasia encontra o sombrio.

Dark Fantasy com Raízes Brasileiras

Este não é um conto de fadas. É terror psicológico disfarçado de magia.

Ainê atravessa sete fendas, cada uma roubando um pedaço dela: alegria, sonhos, destino, fé, identidade, vontade, justiça. Os Distorcidos são as criaturas que governam essas fendas,  são predadores da alma. Eles se alimentam do que nos torna humanos.

E eu quis isso. Quis criar algo que incomodasse. Que fizesse você questionar: quando ouvimos vozes, como sabemos em quem confiar?

Como praticante da Umbanda, sei que espíritos obsessores existem. Eles imitam vozes de quem amamos, se vestem de luz para nos enganar. Ainê, a Encantada é minha forma de explorar isso através da ficção (o perigo da fé cega, da confiança sem discernimento).

(Importante: os Distorcidos e as sete fendas são criação literária. Não têm relação com as verdadeiras sete cidades sagradas da Encantaria, que são lugares de luz e sabedoria.)

Por Que Escrevi Isso?

Porque eu precisava.

Depois de anos escrevendo sobre dor emocional, sobre relacionamentos, sobre solidão, tristeza… eu precisava escrever sobre outra coisa. Sobre o sobrenatural. Sobre o folclore que corre nas minhas veias. Sobre as coisas que aprendi nos terreiros e que me assustam tanto quanto me fascinam.

E também porque queria ver se eu conseguia. Se conseguia sair da zona de conforto da poesia e construir uma história que prendesse do início ao fim.

Acho que consegui.

11-25-300


É curto, pode ser lido em menos de uma tarde. Mas prometo que vai ficar com você depois.

É meu primeiro conto publicado. Meu primeiro passo para fora da poesia. O primeiro volume da Coleção Contos dos Distorcidos.

E eu tô com medo e empolgada ao mesmo tempo.

Se você acompanha meu trabalho há um tempo, vai perceber que ainda sou eu escrevendo, ainda tem aquela intensidade emocional, aquele jeito de descrever sentimentos. Mas agora com criaturas estranhas, fendas na realidade e uma protagonista que você vai amar e ter pena ao mesmo tempo.

Com carinho,
Lua Eslava

Obs.: Se depois de ler você ouvir seu nome sendo chamado no escuro… fica esperto. Nem toda voz que parece familiar é de confiança. eu precisava.

os livros que ainda não li

Há alguns muitos meses, não sei dizer, eu me dei de presente alguns livros que estavam há mais tempo ainda na minha lista de desejos da Amazon. São livros de autores que admiro, de gêneros que adoro, e que eu estava ansiosa para ler.

Entre eles, estão Pelas Paredes, Autobiografia e O Senhor dos Anéis:

Pelas Paredes, de Marina Abramović: um livro sobre a trajetória da artista, e sobre como ela usa as palavras como uma forma de arte.
Imagine poder ouvir as palavras fluindo através do ar, como se fossem música? É isso que Marina Abramović descreve em seu livro “Pelas paredes: Memórias de Marina Abramovic”. Ela conta que, durante uma performance, ela começou a ouvir as palavras que estavam sendo ditas pelo público. Era como se elas estivessem pulsando em sua cabeça, e ela pudesse sentir sua energia.

Essa experiência foi tão intensa que ela decidiu pesquisar mais sobre o assunto. Ela descobriu que, na verdade, a privação de sono pode causar uma série de alterações na percepção, incluindo a capacidade de ouvir vozes e ver coisas que não estão lá.

Autobiografia, de Charles Darwin: a autobiografia do naturalista, que conta sobre sua infância, sua formação, e suas viagens pelo mundo.
Charles Darwin foi um homem de mente brilhante e espírito aventureiro. Ele viajou pelo mundo para estudar a natureza, e suas descobertas mudaram nossa compreensão do universo.

Em seu livro “Autobiografia”, Darwin conta sobre sua infância, sua formação, e suas viagens. Ele também fala sobre suas ideias sobre a evolução, que foram controversas na época, mas que hoje são aceitas pela ciência.

O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien: a clássica saga de fantasia, que conta a história da jornada de Frodo para destruir o um anel.
J.R.R. Tolkien criou um mundo de fantasia rico e complexo, cheio de criaturas e lugares fascinantes. Em “O senhor dos anéis”, ele conta a história de Frodo Baggins, um hobbit que é escolhido para destruir o um anel, uma arma poderosa que ameaça destruir a Terra-média.

Frodo embarca em uma jornada perigosa, acompanhado por seus amigos Sam, Merry e Pippin. Eles enfrentam muitos desafios, mas também encontram aliados inesperados.

Os outros livros são 1985 de George Orwell, O Senhor das Moscas de William Golding, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, O Alquimista de Paulo Coelho e O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini. Quero muito começar a ler esses livros, mas ainda não tive tempo. A verdade é que eu estou passando por um momento muito complicados.

Estou há quase quatro dias sem dormir. Eu sei que isso é muito perigoso, e que pode causar danos ao meu cérebro e ao meu corpo. Mas eu não consigo dormir.

Segundo um artigo publicado na revista científica “Nature”, a privação de sono além dos que já citei no livro da Marina, pode causar uma série de problemas, incluindo:

Dificuldade de concentração e memória
Alterações de humor, como irritabilidade, ansiedade e depressão
Aumento do risco de acidentes
Eu já passei por isso algumas muitas vezes ao longo da minha vida, a minha relação com o sono é muito complicada, qualquer dia desses explico. Uma vez, eu fiquei sem dormir por mais de uma semana, e cheguei a surtar. Uma coisa que me lembro bem, foi ser capaz de ouvir o açúcar se movento no fundo da xícara ao mexer a colher no chá que estava preparando.

Desta vez, eu ainda não cheguei a esse ponto. Mas meu humor está muito instável, confesso que não é novidade também, e para piorar eu tenho faltando nas terapias e não estou tomando meus remédios como deveria, o que só tem piorado. Eu tenho brigado com todo mundo, por muito pouco ou até sem motivo nenhum. Eu já chorei sem parar por horas, e já fiquei com tanta raiva que senti que ia me quebrar por dentro.

Eu sei que tenho problemas mentais, ninguém mais precisa me dizer isso. Mas eu não estou conseguindo lidar com isso. Eu me sinto perdida e sozinha.

A única coisa que de certa forma me ajuda a entender o que está acontecendo comigo é a escrita. Eu tenho escrito quase todos os dias, muitos desses textos provavelmente nunca vou mostrar a ninguém e vão se perder pelo tempo, e isso me traz certo conforto.

Se não me engano acho que foi a poetisa Sylvia Plath que disse “A escrita é um ato de resistência”. E é verdade. Quando estamos passando por um momento difícil, a escrita pode nos ajudar a encontrar uma voz, a expressar nossos sentimentos, e a trazer sentido na vida, mesmo no caos.

Eu sei que fazer algo quanto a isso. Mas acho muito difícil assumir isso. Eu sei escrever, mas não sei falar sobre qualquer coisa que seja com ninguém, que complica muito.

Eu só quero que isso acabe. Eu quero me sentir bem.

Eu ainda não li todos os livros que comprei desde o dia que terminei O Senhor dos Anéis, não toquei em mais nenhum.

Eu sei que eles estão lá, me esperando. Mas por enquanto não tenho forças para continuar a lê-los.

Talvez, um dia, em uma semana, ou em um mês qualquer de um futuro que não sei…

Mas, por enquanto, só por enquanto e para começar, eu só quero dormir.

a teia

Hoje acordei com um desejo irresistível de ouvir minha música favorita. Aquele refrão que sempre me trazia conforto, que me transportava para um mundo onde tudo parecia mais leve. Mas algo estranho aconteceu quando apertei o play. A música estava diferente. A melodia, os arranjos, tudo parecia ter sido alterado. Até mesmo a voz do artista soava desconhecida para mim. Fiquei perplexa e não consegui entender o que estava acontecendo.

A princípio, pensei que fosse apenas um erro, talvez uma nova versão que eu ainda não tinha conhecido. Decidi então buscar a música em outras mídias, procurando por ela no Spotify, no YouTube e em todos os outros lugares que pude imaginar. Mas, para minha surpresa, em todos os lugares ela estava diferente. Aquela canção que eu tanto amava não existia.

A inquietação começou a tomar conta de mim. Decidi ouvir outras músicas que também faziam parte da trilha sonora da minha vida. E para minha surpresa, todas estavam diferentes. Os ritmos, as letras, tudo havia mudado. Eu não conseguia compreender. Será que eu estava ficando louca? Será que a realidade que eu conhecia estava se desfazendo diante dos meus olhos?

A angústia me consumia enquanto eu me questionava se tudo o que eu acreditava ser real realmente existia. Se a música que me acompanhava diariamente tinha se transformado, o que mais poderia ter mudado em minha vida? Comecei a duvidar das minhas memórias, dos meus sentimentos, até mesmo das pessoas ao meu redor. Será que elas também eram diferentes agora? Será que eu estava sozinha nesse universo distorcido?

Com o coração acelerado, entrei em um estado de perplexidade. A sensação de estar presa em um pesadelo era avassaladora. Passei a questionar minha própria sanidade, a me perguntar se tudo ao meu redor era uma ilusão. Meus pensamentos vagaram para além dos limites do possível, me fazendo duvidar até mesmo da minha própria existência.

Em meio a esse torpor de incertezas, decidi sair em busca de respostas. Andei pelas ruas da cidade, observando as pessoas, tentando encontrar algum sinal de que a realidade era palpável. Mas, para minha surpresa, tudo parecia vazio. As cores eram desbotadas, os rostos eram borrões indistintos. Era como se o mundo ao meu redor estivesse em constante mutação, revelando uma verdade oculta que eu não conseguia compreender.

Desesperada, tentei me comunicar com as pessoas, buscando algum tipo de validação para minha existência. Mas todas as minhas palavras se perdiam em um eco silencioso, como se eu estivesse presa dentro de um pesadelo solitário. A angústia me envolveu, sufocando qualquer esperança que restasse.

Então, em um momento de exaustão e desespero, eu caí de joelhos, encarando o céu. Eu clamava por uma resposta e foi nesse instante que uma revelação surpreendente tomou conta de mim…

Abro os olhos lentamente, sentindo a familiaridade do meu quarto ao meu redor. A luz suave do amanhecer atravessa a cortina, trazendo um vislumbre de esperança para o novo dia. Levanto-me da cama e me dirijo ao meu computador, ansiosa para finalmente ouvir a minha música favorita. Mas assim que aperto o play, a realidade desmorona.

O desespero se infiltra em meu peito e uma onda de inquietação toma conta de mim. Será que estou enlouquecendo? A música continua com os acordes errados e a letra distorcida.

Uma sensação arrepiante de medo começa a se instalar. Será que tudo em que acredito é apenas uma ilusão? Olho em volta, buscando por algo familiar, algo sólido para me ancorar, mas as dúvidas se multiplicam. As paredes do meu quarto parecem se mover, os móveis se transformam em formas estranhas e desconhecidas.

A angústia se intensifica à medida que persigo pistas para desvendar essa realidade despedaçada. Procuro por informações na internet, busco respostas, mas tudo o que encontro são versões erradas daquilo que considerava real.

E então, num momento de confusão, acordo novamente. Respiro fundo, aliviada, pensando que finalmente escapei daquela teia de ilusões. Observo o ambiente, tudo parece em ordem. Mas quando me olho no espelho, o reflexo não é o meu. É o rosto de uma estranha olhando de volta para mim. Meu coração acelera, meu estômago se contorce.

Tento recordar onde estou, mas nada faz sentido. Os objetos ao meu redor dançam e mudam de forma, como se zombassem de mim. Tento sair, mas as portas levam a lugares desconhecidos, labirintos de corredores sem fim. A angústia se transforma em pânico, o desespero consome cada fibra do meu ser.

Nesse turbilhão de confusão e caos, questiono, será que tudo o que vivi até agora foi apenas um sonho dentro de um sonho? Ou será que essa realidade distorcida é a verdadeira?

E então, em um último suspiro de esperança, desperto novamente. Olho ao meu redor, ofegante e com os olhos arregalados. Estou de volta ao meu quarto, mas algo parece diferente. Uma aura de estranheza permeia o ar, as sombras dançam de forma inquietante e os objetos parecem ganhar vida própria.

Reúno coragem para me levantar e me dirigir ao banheiro. No caminho, cada passo parece incerto, como se o chão estivesse fugindo de sob meus pés. Chego ao espelho e hesito por um momento antes de encarar meu reflexo.

O que vejo me deixa sem palavras. Sou eu. Mas no reflexo, me encontro com olhos vazios e sorriso enigmático. Minha mente está atordoada, tentando encontrar uma explicação para essa transformação surreal.

Eu examino o resto da casa, mas nada é familiar. As paredes parecem se contorcer, os objetos mudam de cor.

Meus pensamentos estão confusos e minhas emoções se misturam em um turbilhão caótico. Será que estou presa em algum tipo de dimensão paralela? Onde será que eu estou?

Enquanto tento encontrar uma saída, as leis da física parecem não existir mais, objetos flutuam no ar, a gravidade é desafiada.

E então, num momento de clareza abrupta, acordo mais uma vez. Dessa vez, não há dúvidas. Estou de volta ao meu quarto, a minha realidade. Mas afinal, quem sou eu para definir o que é real?

meu vocabulário é livre e voa!

Desde pequena, ouço essa frase: “Você é uma garota tão bonita, por que fala tanto palavrão?”. Falar palavrão é sempre associado à sujeira, vulgaridade e promiscuidade. Mas, sabe de uma coisa? Eu acho que falar palavrão é libertador. Não vejo nada de errado nisso. Eu não sou religiosa nem puritana, então não sinto culpa por isso.

Eu sou do tipo que usa palavrões como interjeições, como uma forma de expressão. Para mim, falar palavrão é como escrever com um ponto de exclamação. Muita gente ri quando digo que um palavrão é como um advérbio de intensidade. Em vez de dizer “Nossa, esse vestido está lindo!”, muitas vezes eu digo: “Nossa, esse vestido está do caralho!”. E, sinceramente, não vejo vulgaridade nisso.

Infelizmente, muitas pessoas confundem ser expansivo com ser vulgar. Para essas pessoas, só posso dar tempo ao tempo para que elas percebam que as coisas não são bem assim. Muitas mulheres comportadas e contidas podem ser muito mais vulgares do que eu. Afinal, o cachorro que late muito não é necessariamente o que morde.

Sabe de uma coisa? No fundo, sinto pena daqueles que nunca falam palavrão. Pena daqueles que se contêm e se culpam por não soltarem seus latidos. Sabe aquelas pessoas educadas que se transformam em monstros no trânsito e mandam os outros “para aquele lugar”? Bem, isso eu nunca faria. Palavrão não precisa ser usado para ofender. Palavrão deve ser usado para se comunicar!

crônica do dia

O fato é, eu não queria ter despertado agora, mas, o gato e a senhora ocuparam meu tempo!

Era uma manhã chuvosa e eu estava mergulhada em um sono profundo, sonhando com xícaras de café e cobertores macios. Mas, como o destino adora brincar com a gente, fui abruptamente despertada por uma batida furiosa na minha porta.

Abri os olhos sonolentos e, com muito esforço, levantei da cama. A minha esperança de aproveitar alguns minutos a mais de sono estava desaparecendo mais rápido do que um biscoito no meio de uma matilha de cães famintos. Suspirei, perguntando quem seria o desafortunado ser humano que me tiraria da minha sagrada cama quentinha.

E então, assim que abri a porta, deparei-me com uma senhora idosa de olhar desesperado e cabelos desgrenhados. Ela estava ofegante, como se tivesse corrido uma maratona em poucos segundos. Sem mais delongas, ela começou a falar sem parar, sem nem se preocupar em me cumprimentar.

“Por favor, moça, você precisa me ajudar! Meu gato, o Sr. Bigodes, decidiu se aventurar pelas ruas e agora está desaparecido! Eu já procurei em todos os cantos, mas ele simplesmente sumiu! Ele é um fugitivo felino! Eu estou desesperada!”

Antes mesmo que eu pudesse responder ou cumprimentá-la, a senhora começou a falar novamente, despejando seus problemas e preocupações sobre mim. Ela repetia incessantemente a pergunta: “Qual é o seu nome?”. Parecia que a cada três segundos ela esquecia quem eu era e fazia a mesma pergunta novamente.

Enquanto a senhora desfiava seu discurso dramático, eu tentava processar a situação surreal em que me encontrava. Será que o universo havia decidido transformar minha vida em uma comédia maluca? E, mais importante, por que eu, uma pessoa que mal conseguia cuidar de si mesma, deveria ajudar a resgatar um gato fujão?

Mesmo com todas as dúvidas martelando em minha mente, não tive coragem de negar o pedido desesperado da senhora. Eu sabia que, lá no fundo, era incapaz de resistir a um apelo tão cômico e inusitado. Aceitei a missão de resgatar o Sr. Bigodes, mesmo sem ter ideia de onde começar.

Saímos pela vizinhança, eu e a senhora, em busca do gato desaparecido. Enquanto isso, ela continuava a reclamar de seus joelhos doloridos, das varizes nas pernas e até da dentadura frouxa. Cada passo era acompanhado por um resmungo diferente, e eu mal conseguia conter o riso diante de tanta excentricidade.

Após uma busca interminável, encontramos o Sr. Bigodes agachado embaixo de um carro, como se estivesse tramando uma fuga para um paraíso felino desconhecido. E, sem pensar duas vezes, me arrastei pela poça d’água que se formara ao redor, estendendo a mão e agarrando o gato pela cauda.

E lá estava eu, com sono, toda encharcada, com o gato pendurado pelo rabo, enquanto isso a senhora continuava perguntando meu nome…

diário do futuro

Dia 1
Querido diário,

Hoje é o dia em que tudo começa. A notícia da viagem para Marte chegou até mim como uma promessa de esperança para salvar nossa amada Terra. As mudanças climáticas têm devastado nosso planeta. O derretimento acelerado das calotas polares tem causado inundações catastróficas em muitas regiões costeiras. As chuvas torrenciais se alternam com longos períodos de seca, levando à escassez de água e à perda de cultivos agrícolas. As tempestades violentas se tornaram mais frequentes e destrutivas. Os incêndios florestais consomem vastas áreas de nossas matas, deixando um rastro de cinzas e tristeza.

Dia 17
Os preparativos para a viagem estão a todo vapor. A Terra parece um verdadeiro cenário apocalíptico. As cidades estão em ruínas, com edifícios desmoronando e escombros espalhados por todos os lados. A vida nas metrópoles é uma corrida frenética pela sobrevivência, onde alimentos e água potável são disputados como preciosidades. As florestas, antes verdes e exuberantes, agora são apenas lembranças de sua majestade. A fauna e a flora lutam para sobreviver em meio à destruição e à poluição. Nossos rios e mares, outrora repletos de vida, são agora vastos cemitérios de animais marinhos mortos.

Enquanto nossa equipe se prepara para a viagem, somos assolados pela sensação de que estamos deixando para trás um mundo que se despedaça lentamente. A angústia e o medo se misturam à esperança de que essa missão seja a chave para a salvação.

Dia 42
O dia da partida se aproxima, e o clima de apreensão toma conta da espaçonave. Os líderes da missão estão cada vez mais evasivos. Questionamentos são recebidos com respostas vagas e olhares vazios. Algo está errado, mas parece que não querem nos contar. O segredo é opressor, e temo que seja algo ainda mais terrível do que imaginamos.

A Terra parece mais desoladora a cada dia. As últimas áreas verdes estão desaparecendo rapidamente, e os animais selvagens lutam pela sobrevivência em meio ao caos humano. É difícil acreditar que haverá esperança para quem ficar.

Dia 76
Os rumores se espalham como fogo na espaçonave. Todos sussurram sobre a verdade que está sendo escondida. Fomos escolhidos para essa missão sem volta, mas o que eles não nos contaram é que a Terra está além do ponto de retorno. Nossos esforços para salvar o planeta foram em vão. A verdade nos atinge como um soco no estômago, roubando-nos o ar e deixando-nos sem chão.

A notícia se espalha como uma onda de desespero entre os tripulantes. Alguns se revoltam, outros se fecham em um silêncio angustiante. Como pudemos ser mantidos no escuro enquanto a esperança nos iludia? A decepção e a tristeza se transformam em raiva e descrença.

Dia 93
A verdade é devastadora. A Terra está condenada, e nós somos apenas alguns poucos escolhidos para recomeçar em Marte. A esperança que nos trouxe até aqui é, na verdade, uma miragem. Bilhões de pessoas e inúmeras espécies ficarão para trás, sem esperança de sobrevivência. A culpa nos consome, e nos perguntamos como poderemos seguir adiante sabendo que quem ficou na Terra enfrentará um destino cruel.

A espaçonave parece um abismo silencioso de dor e desespero. Os sacrifícios pessoais que fizemos para essa viagem agora parecem em vão. Como conseguiremos olhar para o céu noturno de Marte, sabendo que nossos entes queridos estão lá embaixo, enfrentando um destino sombrio?

Dia 104
A bordo da espaçonave, reina um clima de tristeza e desesperança. A Terra, com todas as suas belezas e falhas, é apenas uma memória distante. As paisagens, os sons, os cheiros, tudo parece tão distante agora. A verdade sobre a Terra nos trouxe um novo tipo de dor, aquela que nos faz questionar o sentido de nossa existência.

Enquanto atravessamos o vazio do espaço, sinto a sensação de estar perdida. A esperança que um dia tivemos se transformou em uma cicatriz em nossos corações. Mas, mesmo na escuridão, eu prometo a mim mesma que, se sobrevivermos e prosperarmos em Marte, não esquecerei daqueles que foram deixados para trás. Serei a guardiã das memórias da Terra, contando às futuras gerações sobre a beleza e os erros do nosso mundo, para que nunca se esqueçam do verdadeiro preço da esperança e da negligência.

Dia 150
Querido diário,

Hoje, completamos 150 dias desde o início desta jornada. Marte está mais próximo do que nunca, mas o brilho desse novo mundo não apaga a tristeza que carregamos. A Terra que amávamos agora é apenas uma lembrança, um ponto azul brilhante no vazio do espaço.

Enquanto olho pela janela da espaçonave e vejo o azul da Terra, uma parte de mim sente que estamos deixando um pedaço de nós para trás. Nossos sacrifícios pessoais, nossos esforços para mudar o rumo das coisas, tudo parece em vão diante da imensidão do universo. Mas, mesmo assim, eu prometo a mim mesma que, se sobrevivermos e prosperarmos em Marte, não esquecerei daqueles que foram deixados para trás. Serei a guardiã das memórias da Terra, contando às futuras gerações sobre a beleza e os erros do nosso mundo, para que nunca se esqueçam do verdadeiro preço da esperança e da negligência.

Com tristeza e esperança,

Isabela